Últimos artigos

Sobre as serpentes encantadas do Marrocos


Este artigo é complementar ao episódio número 2 do TWBF Marrocos no Youtube, entitulado "Encantadores de serpentes? Isso existe mesmo?" Acesse aqui e entenda um pouco mais do contexto.

Uma prática frequente no Sub-Continente Indiano e em alguns países do Magreb - como é caso do Marrocos - é o ofício de "encantador de serpentes". Um artista que busca um lugar onde possa chamar a atenção de seu público exibindo serpentes, frequentemente exemplares do gênero "Naja", que parecem estar hipnotizadas pela melodia de uma flauta encantada.

Obviamente é um artista que facilmente agrega público, pois acaba sendo impossível não prestar atenção na sua atração. Imagine você caminhando numa praça caótica, cheia e barulhenta e de repente topa com meia-dúzia de serpentes ali soltas no meio do caminho? Óbvio que notaria!

A prática é antiga. E claro, existe uma "técnica secreta" por detrás disso. Perguntar para um encantador como ele faz aquilo é o mesmo que pedir a um mágico que revele o seu truque. Pesquisando na Internet, topei com alguns tópicos que achei relevante compartilhar aqui convosco:
  • As serpentes não tem um ouvido físico desenvolvido, na maioria das vezes são capazes de interpretar o som de apenas algumas frequências pela vibração do ar, mas de modo geral, tem péssima audição. Um bom indício para questionarmos se realmente estão sendo "encantadas" pela música.
  • A maioria das serpentes não tem boa visão. Agora imagine o encantador balançando a flauta na frente dela? No mínimo deve colocá-la em estado de alerta, não acha? Agora tente "pensar" como uma serpente: se você fosse atacar alguma coisa, qual seria o teu primeiro alvo? Aquilo que está dentro do teu campo de visão, que esteja mais próximo e portanto que te ofereça maior ameaça, não acha? E neste caso, qual seria este elemento? A ponta da flauta! Exato, a flauta garante uma margem de distância suficiente para que o bote da naja não atinja o artista.
  • As serpentes podem até serem quase surdas e quase cegas, mas ninguém as engana pelo olfato! Sim, este é o seu sentido mais desenvolvido! E se colocássemos na ponta da nossa flauta um pouquinho do cheiro da comida favorita da nossa serpente? Será que isso não atrairia ainda mais a atenção do animal pelo objeto e garantiria ainda mais a nossa segurança? Pois é, pelo que li por aí, alguns encantadores colocam urina de rato na ponta das flautas e assim garantem que o “encanto” funcione melhor.

Até aqui vejo a coisa como sensacional. Sei lá, se o animal não estiver sendo maltratado, não vejo problema nenhum nessa “arte de encantar serpentes”. Vai dizer que você nunca “encantou” teu cachorrinho com um biscoito quando ele saltou o obstáculo ou o cavalo com um torrão de açúcar se ele levantou a pata? E foi essa a minha interpretação na primeira vez que vi isso.



Para que o ofício funcione, precisamos escolher uma serpente com cuidado. Precisamos de uma espécie que seja capaz de levantar-se do solo e manter-se nesta posição por algum tempo. Se ela for capaz de expandir o seu pescoço quando está intimidada o espetáculo é ainda maior, não acha? O gênero das najas parece ideal para isso!

Acontece que todas as espécies deste gênero são altamente agressivas e peçonhentas. Você já imaginou o risco que pode ser manipular estes animais diariamente? E se uma escapa? E se te pega sem querer? Um único erro seria fatal!



Bem, aqui entra o universo perverso desta “arte” e o ponto onde discordo na prática do ofício. Em alguns casos, os encantadores extraem as presas e as glândulas de veneno destas serpentes, e em casos extremos chegam a costurar a boca destes animais. 

Fiquei bem na dúvida se isso era verdade e na minha segunda viagem ao Marrocos, foi um detalhe que não queria deixar passar despercebido. Dos animais que vi no chão da praça - se você viu o vídeo do The World by Fon Youtube sabe que cheguei bem perto - nenhum parecia estar com a boca costurada e muitos deles pareciam inclusive estarem bem ativos. 

As cobras menores, que estavam nas mãos dos encantadores - e que inclusive em algum momento do vídeo uma delas é colocada no meu pescoço - pareciam extremamente débeis, anestesiadas ou drogadas. Digo isso porque fiquei alguns instantes com uma delas na mão, e realmente pude notar esta “lerdeza” nos animais. Não sei exatamente o porque estavam assim, mas senti muita raiva naquele momento!

Fiquei de olho no “bote” das serpentes, pois queria realmente ver se esta história dos dentes era verdadeira ou não! Parece que o encantador, para incrementar o seu espetáculo, fez questão de provoca-las.  Realmente atacavam “com a boca aberta”, mas infelizmente não consegui ser rápido o suficiente para identificar se as presas estavam realmente ali. Mais tarde, já em casa e durante a edição dos vídeos, comecei a procurar todas as cenas dos “botes” e para a o meu desgosto, realmente encontrei casos onde as presas haviam sido retiradas.



Enfim, é realmente muito triste pensar no maltrato destes animais e em função disso acabei me encontrando no seguinte dilema: “Que abordagem fazer neste vídeo? Como expor esta situação? Imagina a quantidade de reações diferentes que posso causar nas pessoas que venham a assisti-lo? Será que ao publicar este material estarei fomentando ainda mais essa prática ou será uma maneira de denunciá-la?” A verdade é que não sei até que ponto fiz o correto em expor a situação, mas fico tranquilo quando penso que fui sincero o tempo todo e apenas retratei a sensação pela qual passava naquele momento. Espero que entenda a minha intenção.

Qual é a sua opinião sobre este assunto? Você sabe de mais alguma coisa? Te dá medo? Te dá raiva? Acha normal? Gostaria de saber o que você tem a dizer.

Abraço maior que o Atlântico,

Fon

Facebook - The World by Fon
Instagram - @afonsosolak
Twiter - @afonsosolak
Google Plus - Afonso Solak
Email - afonsosolak@gmail.com



Nenhum comentário:

Postar um comentário

The World by Fon Designed by Templateism.com Copyright © 2014

© Copyright 2013, All Rights Reserved to The World by Fon. Tecnologia do Blogger.