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Relatos de "outro dia conturbado"


Por algum tempo essa história ficou esquecida, mas numa noite de estudos semana passada ela surgiu em meio a nossos assuntos e quando nos demos conta, estávamos rindo demais. O objetivo de escrever isso aqui é registrar essas lembranças, para que num futuro eu venha a ler e reler, portanto talvez seja um saco para você que não viveu essa cena continuar lendo. Quem tiver o interesse de "sentir" um pouco de como é passar apuros diante das dificuldades de uma trip low cost como essa, continue lendo. Acredite, nada é tão ruim que não possa piorar!



Ooo vontade de sair andar - Cat's Hostel
Era uma manhã ensolarada naquele 13 de agosto de 2010. Era último daqueles 22 dias. Estávamos no último hostel da última cidade planejada para nossa primeira EuroTrip: Cat’s Hostel em Madrid. A noite havia sido “animada” após o último Pub Crawl e alguns de nós realmente não queriam mover uma pena para levantar e fazer o último Free Walking Tour da viagem. E aqui surge um dos maiores inimigos dos viajantes: O cansaço!

Dentre os cinco apenas quatro resolveram acordar mais cedo e cumprir o protocolo do mochileiro naquele dia, e dentre os quatro nem todos tomaram café. Kaio havia decidido por dormir até mais tarde e não saiu conosco. Saímos com um grupo para o tour onde havia outro brasileiro.

Após conhecermos boa parte dos pontos interessantes da capital espanhola, decidimos por almoçar e ir a estação verificar os horários para Toledo, quem sabe daria tempo de conhecê-la. Nesse meio tempo, o brasileiro voltou ao hostel e ao conversar com Kaio disse: “Eles foram para Toledo!”

Aí começa a confusão: Kaio cansado de esperar no hostel e achando que havíamos ido a Toledo resolveu sair para aproveitar o dia (e a noite) de Madrid. Não nos comunicamos nesse meio tempo, pois nenhum de nós tinha um celular, pois era muito caro para nosso padrão de viagem. Quando chegamos ao hostel, pois obviamente não fomos a Toledo (tanto pelos horários, quanto por estar sem o Kaio), encontramos um bilhete colado em nossos lockers:

“Esperei por vocês, mas como foram a Toledo, e provavelmente irão demorar, saí para aproveitar mais um pouco. Volto até às seis da manhã.

Kaio.”

Quando vimos o bilhete eram por volta das 18 horas e não nos preocupamos muito com a situação. Como nosso vôo era na manhã seguinte, fui checar o horário exato em que deveríamos estar no aeroporto. Quando abri as reservas da Ryanair a surpresa desabou: O vôo era as seis da manhã! Isso nos obrigava a sair do hostel pelos menos às quatro e meia! E pior, o Kaio não sabia disso!

Que noite louca! Iniciamos procurando por ele pelos estabelecimentos da região, mas não encontramos. Giovani e Cristian procuravam por um lado e Eu e Bernardo por outro. O tempo passava rápido demais! Quando ultrapassamos o limiar das três e meia, resolvemos arrumar nossas mochilas e adiantar arrumando as bagagens do Kaio, mas ele havia levado a chave do locker com ele! Definitivamente a sorte não estava conosco!

Após as quatro da manhã já estávamos procurando novos vôos para Milão, mas os vôos só são Low Costs se comprados com antecedência. A solução foi uma parte do grupo ir embora para a Itália e o outro ficar. Bernardo ficou esperando Kaio no hostel enquanto Eu, Giovani e Cristhian fomos para o aeroporto. Assim precisaríamos comprar apenas duas novas passagens, o que seria menos prejuízo. Esperaríamos por eles em Verona, na casa do Leonardo, irmão de Bernardo.

Devido a todo o tumulto e a correria, só nos demos conta que não havíamos impresso os comprovantes do vôo quando chegamos ao aeroporto. Tentamos fazer o check-in e fomos impedidos. Procuramos pelo aeroporto uma impressora, mas eram cinco e pouco da manhã, portanto não encontramos nada! O jeito foi utilizar do “jeitinho brasileiro” e implorar a atendente da Ryanair para “quebrar um galho” para a gente. Fomos os últimos a embarcar.

Chegamos em Bergamo, nos arredores de Milão, e fomos direto a estação. Era apenas nosso segundo ou terceiro trem na Europa, e ainda não estávamos habituados com aquilo tudo. O trem que faria Bergamo - Verona faria uma troca em Treviglio, mas havia pouco mais de uma hora até lá, na qual poderíamos dormir. Estávamos exaustos.

Quando acordei meio sonolento, olhei pela janela e vi a placa azul indicando Treviglio Ovest. Levantei correndo, acordei o Cris e Giovani avisando: Vamos, vamos! Temos que descer!

- Lógico que não! – respondeu Giovani – essa é Treviglio Ovest e não Treviglio!

- Acho que temos que descer sim! – concordou Cristhian

E descemos. Quando pisamos na plataforma Giovani gritou:

- Meu boné! Meu boné! Esqueci meu boné! – E entrou no trem novamente.

 O som característico anunciando a saída do trem soou. Tentei correr em vão até a porta para segura-la, mas não alcancei. Giovani tentou apertar o botão para abrir a porta novamente, mas era tarde demais. O trem havia partido.

A cena era: O trem partindo com ele dentro perplexo e impossibilitado, e nós fora gesticulando e gritando: “Espera na próxima, espera no próxima!”

Nos informamos ali na estação e descobrimos que o próximo trem para Treviglio era dali apenas duas horas, porém a estação ficava a menos de um quilômetro dali. Obviamente fomos andando. Para ajudar um pouco, eu havia machucado meu pé no dia anterior, o que nos atrasou e acabamos perdendo o trem que sairia para Verona.

Quando chegamos em Treviglio procuramos por ele, mas adivinhe meu caro leitor: ele não estava lá. E agora? Foi logo nos instantes seguintes que escutamos aquele locutor chato da Trenitalia anuciando “il treno vintecinque quaranta due è in partenza per Treviglio Ovest”. Não deu outra, saímos correndo até a plataforma, mas eu não consegui, meu pé estava doendo demais. Sentando em um banco gritei:

-Vai Cris, não consigo, meu pé dói muito. Fico aqui, será melhor caso o Gio apareça!

Quando o Cris chegou até o a plataforma, o que você acha que aconteceu? Obviamente não era nosso dia de sorte, pois o Cris não conseguiu alcança-lo.

Combinamos que eu ficaria esperando em Treviglio e Cris voltaria andando até Treviglio Ovest a procura do Gio, torcendo para ele ter voltado pra lá.

Foi nessa hora que suponho que seja o momento crítico deste relato. Reflita comigo você que agüentou essa história até agora: O Kaio, estava em algum lugar na Espanha que não sabíamos. O Bernardo, procurando por ele. Giovani, em algum lugar na Itália, muito provavelmente naquela região. Cristhian, por sua vez procurando por Giovani. E eu sentado em um banco naquela estação. O jeito era torcer para tudo dar certo.

As coisas melhoraram quando Giovani e Cristhian chegaram exaustos a Treviglio. Aquele trem que Cristhian havia perdido, havia levado Giovani devolta a Treviglio Ovest, mas por sorte Giovani pensou em caminhar até Treviglio. Assim eles se encontraram no caminho entre as duas estações. Esperamos até o próximo trem para Verona e partimos. Realmente o Gio estava certo, deveríamos ter descido em Treviglio.

Chegamos em Verona extremamente cansados, e na falta de cama, revezávamos quem dormia no chão com a mochila de travesseiro. A notícia boa veio à noite quando entramos no Skype e descobrimos que Bernardo e Kaio haviam saído de Madrid por volta do meio dia e logo chegariam a Verona.

Quando chegaram, como não seria possível todos dormirem lá, resolvemos por pegar o trem Verona – Ferrara naquela madrugada mesmo. Havia uma escala em Bologna, onde encontrei o “banco de praça mais confortável da minha vida”, este que utilizei por várias vezes depois.

O último tumulto dessa história foi na chegada:
- Ferrara! – anunciou o fiscal do trem.
- Acorda! Acorda! Chegamos em Ferrara! Vamos! – eu dizia
- Espera! Espera! Minha mochila! Sumiu minha mochila! – gritava Giovani

De fato, haviam roubado a mochila do Gio, com tudo o que havia de importante dentro, inclusive os documentos. Procuramos por todo o trem até os fiscais ficarem bravos, mas não a encontramos. Mais uma vez o cansaço nos tornou um alvo fácil.

Embora o primeiro estabelecimento que conheci em Ferrara tenha sido a delegacia, estava começando a melhor época das nossas vidas! Na melhor cidade das nossas vidas! Não tinha o que nos desanimasse!


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