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Máfias e Vulcões - Parte 1



Sempre que viajei pela Itália, uma preocupação frequente que me surgia era quanto a minha própria segurança. Obviamente andar no metrô Milanês não me preocupava tanto como usar o Metrô Paulista, mas mesmo assim cuidados básicos de turista eram sempre importantes. Por sorte nunca tive problemas. Quando decidi viajar para as cidades que vou citar neste post, percebi que não seria bom viajar sozinho, e acredito que o motivo seja apresentado a você daqui a pouco. Fomos eu e Bernardo para essa jornada que durou 6 dias.

Camorra, com sua fama de violenta, a máfia organizada que atua em Nápoles é uma sociedade secreta que não tolera as imposições do Estado. Sendo assim, as regras, leis e penas atribuídas pelo mesmo, não “afetam” no desenvolvimento das atividades da máfia. O tráfico de drogas, a agiotagem, extorsão, jogo clandestino, trafico de armas estão relacionados com a atuação da Camorra na Campania. Desde o comércio ilegal de carne até as “peças de etiqueta” vendidas na Champs Élysées passam pelo porto de Nápoles, portanto pela Camorra. 

Eram dez horas da noite, quando o trem atrasado rumo a Nápoles chegava na estação. Desembarcamos na região conhecida como mais perigosa da Itália, mais preocupados do que o comum. Chovia pouco e a papelada voava pela estação. Após duas horas entre esperas e trajetos no metrô napolitano descemos próximo a rua do hostel.

Na escura Via Belucci não haviam placas ou indicações sobre o hostel. Todo aquele lixo jogado pelos seus cantos exalava um mal cheiro e a impressão de Nápoles condizia com o que os boatos haviam dito. Me esforçando um pouco encontrei as impressões onde um dia esteve fixado o procurado numero 22. Era uma imensa porta de madeira retangular com o topo curvilíneo.  Procuramos pela campainha, que soou feito um daqueles telefones antigos. Aguardamos no silêncio e quando estávamos prestes a uma segunda tentativa, a fechadura se destrancou revelando uma pequena porta iluminada no portão. Ninguém estava do outro lado. Entramos e descobrimos o Fabric Hostel, um dos melhores albergues que já fiquei.

A fome já havia aparecido na chegada a cidade, mas devido ao clima tenso de "andar em Nápoles a noite" só viemos a percebê-la realmente após a chegada no hostel. O jeito era sair em busca de algo. Algo que já sabíamos o que seria: Pizza!  Acha que viríamos a cidade famosa pela criação deste prato conhecido mundialmente e não experimentaríamos a Pizza Napolitana?

Entramos em uma pizzaria movimentada cuja dona era muito simpática. Fizemos o pedido e aguardamos. Assim como em algumas pizzarias aqui no Brasil, as pizzarias Napolitanas possuem um balcão com os ingredientes, que são protegidos apenas por um vidro. Aquele era o palco para o show que assistiríamos instantes depois.

As "Manobras Napolitanas"
Quando começou a "abrir a massa" o pizzaiolo já sacolejava num ritmo animado acompanhando seus assobios.  Começamos a filmar aquilo, que era nada mais nada menos, que o modo Italianíssimo de se fazer pizza. Quando viu nossa câmera, ele disse algo como: "Preparem-se aí vem algumas manobras!". A partir disso a massa girava em seu dedo como a bola de um jogador da NBA. Arremessos em cestas invisíveis também eram constantes, a pizza voava por trás de suas costas como as fintas em um adversário. E foi quando num último arremesso a massa caiu aberta sobre o balcão pronta para receber o recheio. Por sorte isso tudo estava gravado em minha câmera. 

O primeiro dia em Nápoles foi dedicado ao centro histórico onde tivemos oportunidade de conhecer o Duomo e alguns castelos: Castel del'Ovo e o Maschio Angioino. Passamos pela Basilica di San Francesco di Paola e pela Galeria Umberto I, que me lembrou muito a Galeria Vittorio Emanuele II em Milão. 

O segundo dia começou em um InfoPoint perguntando sobre a possibilidade de tomarmos algumas rotas que gostaríamos de conhecer. Eram elas: Uma obra do arquiteto italiano Renzo Piano chamada “Il Vulcano Buono”; o vulcão Vesúvio e a cidade destruída por ele, Pompéia. As respostas vindas daquela napolitana estressada foram reduzidas a um “não”, um “talvez” e um “sim”, respectivamente.

O primeiro “não” foi devido aos custos para uma visita ao vulcão artificial de Renzo Piano, pois era realmente longe da cidade e fora da rota turística. O “talvez” vinha de uma possível greve realizada pelos motoristas dos ônibus que se dirigiam até a boca do Vesúvio. E por fim, o caminho a Pompéia estava liberado.

Além destas informações descobrimos a respeito de um outro vulcão ativo nos arredores de Nápoles. Era um vulcão de gases, isto é, na cratera não era expelida lava, apenas gases sulfídricos. O trem com destino ao Vulcano di Solfatara partiria em minutos, sendo assim nosso café, no trem mesmo.  

Aquele era o primeiro vulcão que víamos na viagem planejada com tema “Máfias e Vulcões”, e devido ao seu pequeno porte e ao seu fácil acesso ficamos lá por apenas uma manhã. No início apenas sentíamos o cheiro do enxofre, logo lembrei da época que preparávamos corpos de prova no laboratório da faculdade, usando enxofre em estado liquido.

Vulcano di Solfatara
Conforme fomos andando fomos descobrindo pequenos furos no solo, que exalavam uma fumaça amarela. Em alguns pontos existiam mais de um furo onde se formava uma superfície sólida amarela devido ao enxofre depositado. O maior furo que tínhamos acesso esta retratado nesta foto ao lado. Estar perto daquela chaminé era difícil, pois embora ventasse, havia muita fumaça e muito calor.

O tarde daquele dia foi destinada ao retorno ao centro da cidade e a uma grande caminhada, que inicialmente consistia apenas em procurar um carregador de baterias, mas acabamos nos perdendo. Pelas ruas estreitas, sujas e com roupas penduradas por todo lado; em meio a um trânsito desregrado e a um vai e vem de pessoas apressadas, descobríamos aos poucos as influências da Camorra naquele lugar. Confesso que esta foi mais uma das tantas vezes que lembrei das aulas de Arquitetura, quando estudávamos brises e venezianas. Não exatamente pelas venezianas, mas pelas roupas nas sacadas que igualmente estavam expostas nas fotos da professora da faculdade.

Malditos Motoristas!
Acordamos no terceiro dia mais animados que o normal, afinal nas horas seguintes veríamos um “vulcão de verdade”. A ideia era partir para o Vesúvio na parte da manhã e visitar Pompéia na parte da tarde, afinal o ônibus que subia a montanha partia da própria cidade. Tomamos o café da manhã e nos “reabastecemos” com algumas coisas do albergue. Sabíamos que aquele seria um dia longo, pois na final da tarde iríamos aguardar um tempão na estação de Napoli Centrale para pegar um trem para Palermo, no qual passaríamos doze horas.

Chegamos aos pés do Vesúvio na estação de Pompéia perto das oito da manhã. Não eram nem oito quando o primeiro “tiro no peito” nos atingiu. Os motoristas que subiam ao Vesúvio estavam em greve realmente.  E então, o que fazer? Arriscamos mais uns dias em Nápoles para tentar subir o Vesúvio ou seguimos para a Sicília como combinado? Independente da decisão, teríamos a tarde toda em Pompéia para decidirmos.

O segundo “tiro no peito” veio na entrada em Pompéia: 18 Euros! E não aceitavam Student’s Card. Devido a todo o tempo que tínhamos e ao preço que paguei (paguei porquê o Bernardo não pagou, pois possui passaporte italiano), decidi aproveitar “bem” aquela cidade fantasma.



Pompeia foi soterrada por um mar de lama, lava e cinzas em uma das erupções do Vesúvio a quase dois milênios.  Posteriormente encontrada e escavada é hoje um extraordinário sítio arqueológico.  Durante as escavações, eventualmente eram encontrados vazios nas camadas de cinzas, onde estavam restos humanos gerados pela decomposição dos corpos. Injetando gesso e retirando o material no entorno foi possível resgatar formas dos habitantes de Pompéia em seus últimos momentos de vida, tentando escapar ou se proteger da catástrofe. Adultos, crianças e animais se protegendo, correndo e até mesmo rezando. Alguns são tão perfeitos que é possível notar as expressões de horror em suas faces. 

 





Andamos por toda Pompéia durante o dia,  procurando descobrir os costumes e os hábitos das pessoas naquela época. Foi legal, mas no final do dia já estávamos de saco cheio! Então começamos com bobeiras feito “The Amazing Speech”, “Like a Beatle”, “Like a Boss” e “The Legendary Battle”, ilustradas aqui ao lado. Ainda bem que Pompéia estava vazia aquele dia e poucas pessoas presenciaram estes "eventos".



Mais formas...
Ao entardecer decidimos que partiríamos para Sicília, para encarar o Etna, que havia entrado em erupção 27 dias atrás, e a Máfia Siciliana. Partimos para Nápoli Centrale, pegamos o trem e dormimos até Palermo.


Pompéia, ao fundo Vesúvio.




   Continua...

Um abraço maior que o Atlântico!


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